VAR do VAR: os lances mais polêmicos – e as dúvidas permanecem

A tecnologia na arbitragem é um caminho sem volta. O termo VAR (árbitro assistente de vídeo, na sigla em inglês) tal qual o gesto de formar um quadrado com os dedos, simbolizando uma tela de TV para pedir a revisão de um lance, já são compreendidos no mundo todo e, de forma geral, a avaliação do recurso é positiva. Afinal, a presença das câmeras aplicou um golpe na malandragem, amedrontou atletas violentos ou “atores” e inegavelmente diminuiu o número de injustiças e erros graves – o que não significa que não tenha havido grandes trapalhadas.

Suas primeiras experiências no futebol brasileiro e na Copa do Mundo aconteceram no ano passado e foram conturbadas, por falhas no protocolo ou erros de avaliação das jogadas, ainda que com diversos ângulos e replays. “A verdade é que esse VAR é chato para caramba. Estão terceirizando a arbitragem, esperando a imagem em câmera lenta para tomar decisões”, diz Arnaldo Cezar Coelho, ex-juiz de futebol que recentemente se aposentou do posto que ele próprio inaugurou, o de comentarista de arbitragem, e diz ser a favor da novidade, mas com ressalvas.

Listamos alguns lances duvidosos e relevantes em que o VAR interferiu, incluindo jogadas nas finais da Copa do Brasil e do Mundial da Rússia, com opiniões de três ex-árbitros, além de Arnaldo Cezar Coelho e Salvio Spinola o italiano Luca Marelli (dono de um blog dedicado ao apito), para debatê-los – em alguns casos, não houve consenso. Relembre as jogadas e dê também o seu veredicto:

Brasil 1 x 2 Bélgica – quartas de final da Copa do Mundo

No dia 6 de junho de 2018, houve crise no centro moscovita de decisões do árbitro de vídeo: aos dez minutos do segundo tempo, quando a seleção brasileira perdia por 2 a 0, em Kazan, o atacante  Gabriel Jesus invadiu a área pela direita e foi ao solo depois de contato com o zagueiro belga Vincent Kompany. O árbitro de campo, o sérvio Milorad Mazic, ignorou o carrinho e apontou tiro de meta. Em Moscou, debruçada diante das telas, a turma do VAR entrou em conflito – conforme mostrado na revista VEJA –, mas optou por não chamar o árbitro em Kazan para revisar a jogada na tela.

Luca Marelli – NÃO

“Essa jogada é complicada em relação ao protocolo e à posição da bola. A falta foi feita antes ou depois de a bola sair? Foram dois contatos, o primeiro com a bola dentro do campo e outro com a bola fora. O primeiro é o que conta. Para mim, foi um pênalti bastante evidente e o VAR devia ter a última palavra. Portanto, o chefe do VAR, o italiano Daniele Orsato, deveria ter chamado o árbitro.

Salvio Spindola – SIM

“Sei que muitos dos meus colegas discordam, mas para mim não foi pênalti. Conversei com atletas que foram treinados por Guardiola (como os dois envolvidos na jogada), e eles me contaram que o espanhol treina seus zagueiros para recolher a perna e evitar o contato, exatamente o que Kompany fez. É um lance difícil, mas repare que a perna de Gabriel Jesus não muda de direção, pois não há contato com Kompany com a bola em campo. Depois, há um contato acidental, já com a bola fora de jogo.

Croácia 2 x 4 França – final da Copa do Mundo de 2018

A jogada da discórdia no título francês aconteceu aos 33 minutos do primeiro tempo, quando o placar do estádio Lujniki, em Moscou, mostrava empate em 1 a 1: Antoine Griezmann bateu escanteio na primeira trave, Blaise Matuidi desviou levemente para trás e Ivan Perisic desviou com o antebraço. O argentino Néstor Pitana não marcou nada no momento, mas, ao ser chamado pelo VAR e após dois minutos de indecisão, assinalou a penalidade convertida por Griezmann. A dúvida: o movimento de Perisic foi “antinatural” a ponto de configurar a marcação?

Arnaldo Cezar Coelho – TALVEZ

“Se eu estivesse apitando, na hora, não daria pênalti. Mas com a imagem, em câmera lenta, não é nenhum absurdo. Sem VAR, eu achei que houve um toque de mão inesperado, um susto. Mas em câmera lenta você vê o braço subindo em direção à bola, é passível de marcar. O problema é analisar tudo em câmera lenta, tudo parece falta. Como é um lance interpretativo, não objetivo (como um impedimento ou se a bola entrou ou não), eu manteria a decisão de campo.

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Luca Marelli – NÃO

“Para mim, o VAR decidiu bem em chamar Pitana, porque creio que jogadas assim devem ser sempre revisadas. Porém, não concordo com a decisão do árbitro argentino de marcar o pênalti, porque é uma bola totalmente inesperada, ela desvia antes de acertar no braço. Eu diria que é 20% pênalti, portanto não marcaria.”

Corinthians 1 x 2 Cruzeiro – Final da Copa do Brasil

O VAR estreou em torneios nacionais em 2018 – no Brasileirão, só estreará este ano –, e causou enorme controvérsia, sobretudo na final da Copa do Brasil, que coroou o hexacampeonato do Cruzeiro, em Itaquera. Dois lances extremamente relevantes foram decididos via tecnologia: o Corinthians, que perdia por 1 a 0, teve um pênalti assinalado quando Ralf caiu na área após leve toque de Thiago Neves; inicialmente, árbitro Wagner de Nascimento Magalhães ignorou, mas, chamado pelo VAR, foi consultar o replay e, então, apontou a falta, para revolta do Cruzeiro. Jadson empatou o jogo na cobrança.

Salvio Spinola – NÃO

“Não foi nada, o Thiago Neves recolhe a perna e o Ralf que força o contato, há um leve toque, mas não é falta. O que ocorreu é que nesse jogo a CBF errou na escala, pois colocou um árbitro inexperiente em campo (Wagner de Nascimento Magalhães) e um treinado pela Fifa no VAR (Wilton Pereira Sampaio), ou seja, um coronel no VAR e um tenente em campo. Por isso, usou-se demais o recurso do vídeo, o Wagner passou o jogo todo com a mão no ouvido, conversando com o VAR, o que não é o correto.”

Minutos depois, foi a vez de os corintianos reclamarem: Pedrinho marcou um golaço em chute de fora da área, mas novamente Wagner Magalhães recorreu à TV à beira do gramado e anulou o gol. Ele assinalou falta de Jadson em Dedé, após leve toque do meia no zagueiro, no início da jogada.

Salvio Spinola – SIM

“Para mim a ação do Jadson é faltosa, o que se discute é se é um lance para VAR ou não, se é um ‘lance pequeno’ ou não, se foi suficiente para derrubar o Dedé… À luz da regra, esse lance é falta, mas este foi um dos lances mais discutidos em fóruns de arbitragem, vem sendo muito usado em debates. É um lance no fio da navalha, o mundo da arbitragem discute cada vez mais o protocolo, sobre como qualificar quais lances devem ser revisados. Para mim, a decisão foi correta.


Brasil 1 x 1 Suíça – primeira fase da Copa do Mundo

Logo na estreia da Copa do Mundo, o Brasil protestou contra o VAR – inclusive com uma reclamação formal, ignorada pela Fifa – por causa do gol de empate da Suíça, quando Steven Zuber subiu sozinho e marcou de cabeça. O replay mostrou um toque do meia suíço no zagueiro Miranda na origem do lance. Suficiente para configurar falta?


Salvio – NÃO

“O jogador suíço inicialmente tem um contato legal, de manter a distância do zagueiro, mas na hora que a bola chega, ele efetivamente empurra, portanto, gol irregular. Mas também faltou malícia ao Brasil, que deveria ter demorado a dar a saída de bola, o que pressionaria os árbitros a reverem o lance.”

Brasil 0 x 2 Costa Rica – primeira fase da Copa do Mundo

O árbitro de vídeo, definitivamente, não deixou saudades na seleção brasileira na Copa. E um dos lances mais comentados aconteceu em São Petersburgo. O árbitro holandês Bjorn Kuipers, que já havia se estranhado com Neymar ao longo da partida, assinalou um pênalti no astro brasileiro aos 32 minutos do segundo tempo, com 0 a 0 no placar, quando o atacante invadiu a área, cortou para o meio e caiu após ser tocado no peito por Giancarlo González. Os costa-riquenhos protestaram e, após rever a jogada no vídeo, Kuipers tomou uma atitude corajosa e inédita em Mundiais: anulou uma penalidade, por considerar simulação.


Luca Marelli –  SIM

“Para mim, claramente não é pênalti, porque o contato foi muito, muito, muito ligeiro e não suficiente para a marcação do pênalti. Talvez tenha sido forçado um pouco o protocolo, porque não se tratava de um erro grave, Kuijpers havia visto o contato e avaliado, mas devo dizer que foi justo retirar o pênalti, porque não houve.”

 

 

 

 

Fonte: Revista Saúde

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