Sumido a cinco dias das eleições, Paulo Guedes mantém rotina no Bozano

O banco que tem como sócio o economista de Bolsonaro tem 3,5 bilhões de reais sob gestão e um portfólio com 50 empresas investidas

Por
Lucas Amorim e Naiara Bertão

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2 out 2018, 16h21 – Publicado em 2 out 2018, 15h52

O economista Paulo Guedes, coordenador do programa econômico do candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) e possível superministro de seu governo, vive uma vida dupla.

Sumido das agendas públicas de campanha, ele mantém a rotina de trabalho no banco carioca Bozano, onde é sócio. E também segue com a rotina de encontros com economistas de campanha. Nesses eventos, segundo participantes, tenta manter uma separação à prova da curiosidade humana: não fala de negócios num lado, nem de política em outro.

Em reunião sobre os planos de um fundo de investimento do Bozano para 2019, na última quinta-feira (27), da qual participaram funcionários do Bozano e representantes de empresas investidas, por exemplo, nada se falou sobre política.

Ainda assim, a rotina dupla leva a questionamentos. “O chefe da campanha econômica não necessariamente precisa sair de uma determinada posição. Mas neste caso ele preside um banco, onde pode ganhar com o impacto de suas falas no mercado”, diz um economista.

Atualmente o Bozano tem 3,5 bilhões de reais sob gestão e um portfólio com 50 empresas investidas, distribuídas em setores como educação, saúde, consumo, varejo, serviços e tecnologia. A Bozano Investimentos foi criada em 2013 a partir da fusão de três gestoras de investimentos, a BR Investimentos, a Mercatto Asset Management e a Trapezus Asset Management, e capitaneada pela Cia Bozano, investidor estratégico das três empresas. Guedes é um dos fundadores da BR Investimentos.

A manutenção da agenda corporativa também levanta discussões por ocorrer em paralelo com uma série de ausências em eventos de campanha. Desde o início de setembro, Guedes já cancelou sua participação em pelo menos quatro compromissos – no programa de entrevistas Roda Viva, da Rede Cultura, em uma reunião com clientes do Credit Suisse, em eventos da Ancham (Câmara Americana de Comércio) e na corretora XP. Esta semana, ele também já comunicou que não vai participar do debate com os economistas dos presidenciáveis nesta quarta-feira (3) em evento promovido pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Até quando? 

Pouco afeito aos compromissos eleitorais (não queria ir nem na nomeação de Bolsonaro pelo PSL), Guedes submergiu depois de um desentendimento sobre a criação de um novo imposto. Num encontro com banqueiros e investidores, no dia 18, confidenciou que pretendia recriar um imposto nos moldes da CPMF. Nas redes sociais, Bolsonaro escreveu que “chega de impostos é o nosso lema”.

O sumiço público restringe aos eleitores informações importantes nas vésperas do pleito. Nos bastidores, Guedes tem mantido uma rotina com os economistas de campanha para detalhar um programa tido como excessivamente genérico. Ele já afirmou que pretende levantar um trilhão de dólares com privatizações, numa lista que incluiria de bancos a prédios públicos.

Todas as quartas-feiras o presidente do Bozano se reúne com um grupo de oito economistas, no Rio — o encontro de amanhã está mantido. Além desse comitê, recebe semanalmente textos de 26 grupos temáticos sobre áreas como educação, saúde e contas públicas.

A ausência do economista nos eventos mais recentes e os desencontros com Bolsonaro têm preocupado mais os analistas internacionais que o mercado local. Ontem, Joydeep Mukerji, analista da agência de risco S&P Global, afirmou que a eleição de Bolsonaro é um risco maior para a agenda econômica que Fernando Haddad. “O candidato do PT não é um outsider, mas Bolsonaro é, o que aumenta o risco de incoerência ou de atrasos em ter as coisas feitas depois das eleições”.

A bolsa brasileira, por sua vez, vive nesta terça-feira um dia de forte alta após a pesquisa Ibope de ontem mostrar Bolsonaro mais folgado na liderança, com 31 pontos. Se alguém tinha alguma dúvida, portanto, de qual é o candidato preferido dos investidores dentre os postulantes com chance, ela ficou pelo caminho.

Segundo analistas ouvidos por EXAME, o maior tempo de campanha e a maior exposição do segundo turno forçarão Bolsonaro e Paulo Guedes a explicar temas como privatização, reforma tributária e propostas para segurança, saúde e educação. Enfim, terão que se mostrar à altura de conduzir um país complexo como o Brasil para além das bravatas eleitorais.

“Em algum momento ele vai ter que sair do banco. Se ganhar a eleição, não vai poder gerir o país de sua sala no Bozano”, diz um economista.

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Fonte: Exame

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