Santo de casa não faz milagre – 17/04/2018 – Vera Iaconelli

Você pode ter a seu lado o melhor dos companheiros, daqueles que não acham que estão te fazendo um favor ao “ajudar”, mas que sinceramente sabem suas responsabilidades junto aos filhos. Um cara maduro o suficiente para não sentir sua virilidade ameaçada por cuidar de crianças, nem obcecado pela carreira de tal forma, que eliminaria qualquer chance de conviver com a família. Um tipo de homem que já foi inimaginável e tão fácil de encontrar quanto um unicórnio, passa a ser cada vez mais comum, cultuado e exigido. Talvez você seja a sortuda que se casou com um.

Tendo a melhor aposta de pai e companheiro a seu lado, vocês decidem ter filhos. Cinquenta, cinquenta, não é? Não.

Haja a revolução social que houver, o ciclo gravidez, parto e pós-parto cobra um preço inexorável da mulher. Os enjoos e sono do primeiro trimestre —tente escrever uma tese com as pálpebras fechando!—, as infindáveis consultas, as avaliações médicas, a abstinência alcoólica, a experiência acachapante do parto, a corrida de obstáculos da amamentação tiram qualquer dúvida de que a conta não é divisível por dois. 

Na reprodução humana, o corpo da mulher está totalmente comprometido por, no mínimo, um ano —mas, de fato, eternamente. 

Os homens, mesmo os descritos acima, não têm como dividir isso com a mulher e, por vezes, chegam a invejar a experiência que jamais terão —nesse sentido, temos que dar graças aos céus por, pelo menos um, ficar fora dessa loucura. 

Além disso, por esse recolhimento, necessário para termos filhos, as mulheres são penalizadas em suas carreiras de forma clara. O famoso “quem pariu Mateus, que cuide” funciona exemplarmente, principalmente se ela trabalha —o que implica a maioria absoluta das mulheres hoje. Enquanto o homem recebe felicitações no trabalho pela futura paternidade, o afastamento físico, cognitivo e psíquico da gestante cobra seu preço na carreira e na vida pessoal.

Diferentes culturas, em diferentes momentos históricos deram e dão diferente valor às mulheres no período reprodutivo. Se estamos colocando gestantes e mães de bebês nessa sinuca, isso se dá dentro de um processo histórico e, como tal, pode e deve ser criticado. A reprodução é fato da natureza, mas a forma como lidamos com ela é fato da cultura. A solução social contemporânea tem sido deixar para a mulher o ônus econômico e pessoal da reprodução. 

A “saída” buscada pela biotecnologia se resume a encontrar meios tecnológicos de prescindir do corpo da mulher na gestação, processo chamado de ectogênese —mas isso, comento outro dia. 

Deitam em nossos divãs mulheres ressentidas, injustiçadas, deprimidas e raivosas diante do fato de que na hora da maternidade, por mais equânime que possa ser a relação com o companheiro, algo sobra para elas. As cobranças impossíveis de serem atendidas por maridos dedicados, que não sabem mais como responder ao sofrimento delas —que se tornaram mães e irascíveis na mesma medida— têm levado muitos ao divã.

A questão é que enquanto negarmos essa diferença incontornável da reprodução e esperarmos que os maridos deem conta de uma tarefa que precisa ser pensada coletivamente, casais cheios de qualidades e boas intenções continuarão a se debater numa disputa sem saída. Não há santo de casa, que faça esse milagre.

Créditos: FOLHA

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