Que fora PT, nada! Aqui é fora, bebê! – 11/04/2018 – Érica Fraga

Há cerca de dois anos, no auge dos protestos e da tensão pré-impeachment de Dilma Rousseff, levei meus três filhotes numa festa de aniversário. Naquele momento, o maior tinha seis anos, o do meio, quatro, e o menor, alguns meses de vida.

Lá pelas tantas, começa uma movimentação de algumas crianças lançando os bracinhos para o alto e gritando “fora PT, fora PT”. Era dia de manifestação.

Embalando o caçula num canto, busco os meus outros dois meninos com os olhos. Não havia conversado com eles, até então, sobre crise política. Fiquei curiosa para ver como reagiriam. E eis que lá estavam os dois, no meio da pequena multidão, também dando socos com os punhos no ar e movimentando os lábios.

Na volta para casa, nem precisei perguntar. O maior já foi me contando a novidade:

“Mamãe, a gente manifestou. Você viu?”.

Enquanto eu ensaiava responder que sim e perguntar que manifestação tinham feito, o do meio já me cortou:

“Éééé, todo mundo gri-gritou: fora bebê, fora bebê, fora bebê”.

Contive a gargalhada e a surpresa. Olhei os três pelo retrovisor. Os dois maiores riam. Alheio à conspiração, o menor balbuciava alguma coisa enquanto travava uma luta contra um chocalho. Em poucos segundos, entramos na nossa garagem e o assunto deles já era outro.

A história arrancou risos de todas as minhas plateias de amigos e familiares, independentemente de suas (muito variadas) simpatias partidárias e opiniões sobre o momento político delicado do país.

Todos acharam muita graça de aquele pequeno enciumado e espirituoso ter achado que sua agenda secreta para expulsar o ser minúsculo que lhe roubava o colo e a atenção dos pais se convertera em pleito coletivo da criançada.

A leveza da história e a imaturidade deles naquele momento nos levou a não falar nada sobre crise naquele dia e provavelmente nem nos seguintes, se não me falha a memória.

Mas, inevitável, o assunto não tardou a chegar em casa, cada vez com maior ímpeto:

“Mamãe, é verdade que a Dilma é bandida?”; “Papai, a Dilma matou mesmo alguém?”; “Ué, mas ela já não foi presa?”; “Mamãe, você está preocupada?”. O que a TV está falando sobre o gravador do Temer? Ele também vai ‘ser saído’?”; “O que é corrupto?”; “Papai, o Lula já foi presidente? Ele foi um presidente bom ou ruim?”.

Até que, na semana passada, não teve tirada hilária nem pergunta. Na hora do café da manhã, enquanto nos ouvia comentar as notícias, meu filho maior, hoje com oito anos, declarou em tom peremptório:

“Quando crescer, eu é que não vou querer ser presidente de jeito nenhum”.

“É filho, por que não?”

“Não quero terminar preso.”

Triste de um país que desilude suas crianças tão cedo.

Mas, se a crise é severa, as oportunidades que criou para conversarmos com os pequenos sobre ética, respeito às opiniões alheias e retidão são enormes.

O desafio é que, com crianças, não basta falar. É preciso demonstrar com nosso exemplo. Eles se espelham em nós.

Se você pragueja contra o político que aceitou favorecimento, mas trafega pelo acostamento na volta do feriadão, aceita transação sem nota fiscal para se livrar de imposto, recorre ao despachante para eliminar aqueles pontos incômodos na carteira, deixa o filho adolescente falsificar identidade para entrar na balada e por aí vai, não estará contribuindo muito para a educação cívica das gerações futuras.

Ah, mas essas são coisas pequenas, não se comparam aos bilhões desviados da Petrobras?

Ledo engano. Estudiosos do tema têm demonstrado que onde os delitos menores são aceitos amplamente a grande corrupção flui com maior força.

Se quisermos que a atual turbulência se converta em legado positivo, deveríamos não apenas torcer pela punição generalizada —e não pontual— de corruptos, corruptores e corrompidos, mas também nos esforçar para que as normas e regras vigentes sejam cumpridas por todos, começando pelo nosso quintal. 

Créditos: FOLHA

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