Mercado de apostas esportivas cresce no Brasil e traz perigos

Na tarde de 8 de julho, quando os jogadores das seleções do Brasil e da Alemanha entraram em campo para disputar a semifinal da Copa do Mundo de Futebol de 2014, o especialista em logística Roberto Tavares, de 28 anos, de Cascavel (PR), acreditava que o resultado seria equilibrado. Apostou 1 800 dólares num site que a partida não acabaria com mais de dois gols.

Mal sabia ele que aquela seria uma das maiores goleadas que o futebol brasileiro enfrentaria. Sob o comando do técnico Luiz Felipe Scolari, a equipe perdeu de 7 a 1 para os europeus. Enquanto na TV apareciam imagens de torcedores às lágrimas, Roberto entrava em parafuso no sofá de casa. Ele havia perdido, em 90 minutos, mais de 6 000 reais, dinheiro que usaria para fazer a mudança no dia seguinte para Porto Alegre. “Era tudo que eu tinha para me manter. Fui até minha Kombi, que estava com as malas, e comecei a chorar igual criança.”

Assim como ele, muitas pessoas têm perdido dinheiro nas bolsas esportivas e nas casas de apostas online — um mercado em alta no país.

Atuando numa brecha da lei que regulamenta os jogos de azar, que é dos anos 40, quando nem existia internet, essas plataformas se popularizam no país. Segundo estudo da Fundação Getulio Vargas, encomendado pela Caixa Econômica Federal em 2016, só naquele ano esse mercado movimentou 2 bilhões de reais. Número que deve aumentar com a proximidade da Copa do Mundo na Rússia em julho.

Atentas ao movimento, as empresas do setor vêm usando jogadas de marketing para atrair público. Nos últimos anos, começaram a patrocinar grandes disputas, como o Campeonato Paulista, a fazer propaganda na TV e a usar rostos famosos, como o do comentarista e ex-jogador Edmundo. Também passaram a oferecer bônus de boas-vindas de até 500 reais aos iniciantes e, mais perigoso, a vender essas apostas como se fossem um investimento em renda variável.

Parece, mas não é

Embora a bolsa esportiva dê a entender que segue o mesmo princípio do mercado tradicional de ações, não é bem isso que acontece na prática.

 Na negociação clássica, regulamentada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o investidor compra papéis de uma companhia e vira dono de um pedaço dela. De tempos em tempos, a organização é obrigada a prestar contas ao mercado e a divulgar balanços financeiros com números sobre despesas e ganhos, além do planejamento de médio e longo prazo.

André Schürrle, jogador da Alemanha, comemora o sétimo gol da partida: a derrota da seleção brasileira fez muito apostador perder dinheiro | Getty Images

André Schürrle, jogador da Alemanha, comemora o sétimo gol da partida: a derrota da seleção brasileira fez muito apostador perder dinheiro | Getty Images (/)

     Na bolsa esportiva, o apostador não obtém ações de clubes de futebol, como Flamengo ou Corinthians. Em vez disso, aplica o dinheiro em uma partida. Por exemplo, ele acredita que o Corinthians baterá o São Paulo por 3 a 0 e deposita 500 reais a favor desse resultado. Se tiver sorte, dá para lucrar dez vezes esse valor (o retorno do Ibovespa, principal índice da bolsa, foi de 26% em 2017). Como essas apostas esportivas não são regulamentadas, o “investidor” fica vulnerável. Se jogar em sites do próprio Brasil,  pior ainda. Como não há lei específica, nem o Procon nem o Judiciário poderão salvá-lo.

Depois do trauma da Copa do Brasil, Roberto Tavares aceitou o prejuízo e tirou a lição. “Aprendi que o trading esportivo requer dedicação, controle, persistência e experiência. Não dá para ganhar dinheiro com consistência do dia para a noite”, diz. Hoje, ele estuda as estratégias rentáveis, aprendeu a diversificar e não aplica mais de 5% de seu capital. “Invisto a maior parte dos rendimentos em negócios tradicionais. Sou dono de uma editora e me tornei sócio de uma franqueadora no ramo de animais de estimação”, afirma.

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O mercado de bolsa esportiva, assim como o da bolsa de valores, oscila bastante — e ganhos e perdas ocorrem em fração de minutos. Por isso, todo o cuidado é pouco. Além de fazer simulações de apostas em sites especializados e investir pequenas quantias para testar, deve-se avaliar bem a plataforma. Os grandes sites estrangeiros, de paí­ses regulados, são mais seguros.
A décima terceira rodada do Campeonato Brasileiro, no ano passado, foi de jogos improváveis e valores altos. E os apostadores que investiram em algumas casas brasileiras ficaram a ver navios. Elas não honraram o pagamento e não havia a quem recorrer”, diz o advogado Pedro Trengrouse, coordenador do curso de aperfeiçoamento em gestão de esportes da FGV, no Rio.

Para ter sucesso nesse segmento é preciso ainda controle financeiro e estabilidade emocional. Um pé de coelho — ou uma bola de cristal — também é bem-vindo.

Mesmo que a sorte seja vital, investidores experientes garantem que não é o único fator para ganhar dinheiro com o trading esportivo. Para obter 20% de ganho — a rentabilidade média numa temporada promissora —, é fundamental fazer avaliações minuciosas. São necessárias no mínimo 4 horas de estudo por dia para entender o potencial de lucro de uma partida. As análises envolvem centenas de dados, como tipo de competição, resultados recentes, desempenho de titulares (e de reservas), médias de gols, número de lesões, além das particularidades de cada equipe — se um time está passando por uma crise institucional e atrasando o salário dos jogadores, por exemplo, é possível que os atletas estejam desmotivados e não se empenhem em ganhar as partidas.

“Analiso cerca de 20 jogos por semana e só faço uma oferta quando identifico uma boa oportunidade”, diz Patricia Fagundes, de Cruzeiro do Sul (RS), que se interessou pelas apostas online em 2015 e hoje é sócia do Lucre com Futebol, site especializado em informações da área. Sua estratégia é investir em campeonatos nacionais, usufruindo o maior volume de informações possível para traçar seu plano. Patricia dedica 30% de seu capital de investimento à modalidade e costuma dobrar o valor inicial aplicado — chegando a faturar 
2 000 dólares por aposta.

Legalize já?

Sem regulamentação, a maioria das plataformas desse mercado hospeda seu site no exterior, em países com tradição em apostas, como Reino Unido, ou em paraísos fiscais, como Curaçao. Especialistas ouvidos por VOCÊ S/A dizem que, quando alguém aplica dinheiro nelas, é como se tivesse comprado uma passagem para um desses locais e gastado o dinheiro por lá. Desde que se declarem os ganhos, o ato, em si, não é ilegal.

Patricia Fagundes, criadora do site Lucre com Futebol, de Cruzeiro do Sul: antes de arriscar, ela analisa mais de 20 jogos por semana | Marcelo Curia

Patricia Fagundes, criadora do site Lucre com Futebol, de Cruzeiro do Sul: antes de arriscar, ela analisa mais de 20 jogos por semana | Marcelo Curia (/)

   Defensores das apostas alegam que elas têm potencial de arrecadação e ajudariam a tonificar um governo enfraquecido pelo déficit fiscal. Segundo uma pesquisa da auditoria KPMG, rea­lizada a pedido da Remote Gambling Association (associação que reúne empresas licenciadas a operar na Europa), a receita tributária com a legalização de apostas chegaria a 1,3 bilhão de reais. O projeto de lei mais adiantado é o PL nº 186, de 2014, do senador Ciro Nogueira (PP/PI). Ele tramita na Comissão de Constituição e Justiça do Senado e deve ir a julgamento neste ano. O texto valida as apostas físicas e virtuais.

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   Críticos da liberação, como o Ministério Público Federal, alertam para os impactos negativos da medida, como vício, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal, e afirmam que o Estado não possui maturidade e mecanismos de controle eficazes para fiscalizar o setor. Não raro, surgem denúncias de que atletas, árbitros e treinadores foram pagos por companhias de apostas para fraudar jogos (em 2005, 11 partidas da série A do futebol brasileiro foram anuladas por conta disso). Até que o Congresso ou a Corte Superior de Justiça decidam algo, os brasileiros continuam se arriscando. Um risco que, mesmo com a promessa de retorno rápido, deve-se pensar bem se vale a pena correr.

Créditos: Exame

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