Lá onde canta o sabiá

Já quase não se ouve português nas ruas de Moscou e São Petersburgo. A última flor do lácio, inculta e bela, embarcou de volta, rumo ao Brasil, de mãos dadas com Tite, o treinador de idioma exótico. Na partida semifinal entre França e Bélgica, no estádio do Zenit, como muitos brasileiros tinham comprado ingressos na esperança de ver Neymar e cia., antes que companhia e Neymar caíssem, ainda se escutavam os versos quebrados, de rimas tortas, a aberração oxítona da chata canção canarinho – “ô, ô! 94 Romariô! 2002 Fenomenô! Primeiro tetracampeão, único penta é Brazilzão!”. Com as arquibancadas vazias, depois dos 90 minutos, aqui e ali brotava um allez le bleus, a caminho da final, e o Romariô, Fenomenô a caminho de casa. Mas a língua portuguesa, a brasileira, de Olavo Bilac, de Machado de Assis, de Graciliano Ramos, de Guimarães Rosa e de Chico Buarque de Hollanda, de algum modo permaneceu na Rússia, apesar dos torcedores terem dado um do svidaniya, tchau, adeus, até a próxima. O português ficou em São Petersburgo nas páginas amareladas pelo tempo da Antologia da Literatura Portuguesa e Brasileira – Trechos Escolhidos de Autores dos Séculos XIX – XX, em versão bilíngue, organizada por Olga Vasilieva-Schvede e Anatolio Gach em 1964, pela Editora da Universidade de Leningrado.

O livro é um pedaço da história do Brasil na antiga União Soviética, na Rússia. Foi o primeiro volume em cirílico com obras de autores brasileiros. Foi trabalho quixotesco, em parceria com uma professora, já falecida, de Anatolio Gach, um senhor de 80 anos, simpático, sorridente, que começa pedindo desculpas por não ter me recebido em sua dacha na periferia de São Petersburgo, onde “faria uma feijoada e um churrasco”. Os pais de Gach deixaram a Polônia, em 1935, para o exílio em Santa Rosa, no Rio Grande do Sul, quase fronteira com a Argentina. Eram agricultores. Nunca lhes faltou o sonho de retornar e o pai, comunista de carteirinha, queria viver na União Soviética. Em 1952, fizeram as malas e atravessaram o Atlântico – o casal e 5 filhos. O sexto nasceria já na Europa. Gach tem uma lembrança de um instante que nunca o abandonou, desde aqueles 15 anos. “Meu pai pressentia que nunca mais voltaríamos para o Brasil, e sobre os amigos que foram se despedir de nós, no porto do Rio de Janeiro, ele me disse serem as pessoas mais bonitas de coração e alma”. Gach engasga um segundo, emocionado, para, pensa e tenta reproduzir a voz paterna. “Nunca deixe de lembrar-se de hoje, meu filho, se tu volta algum dia. Ele usava o pronome tu e o verbo na terceira pessoa.”

Anatólio Gach (//Reprodução)

A observação gramatical não trai o gosto de Gach pelas palavras, e finalmente ele revela sua profissão: filólogo. E como filólogo, nos anos 60 do século passado, ele criou a cátedra de língua portuguesa da Universidade de Leningrado. Na escola de Filologia Românica havia o romano, o francês, o italiano e o espanhol – mas não o português. Afeito às coisas do idioma escrito e falado no Brasil, ele bem tentou emplacar a adoção da norma da ex-colônia, mas não conseguiu. “Queria poder usar saudade, mas não houve jeito, e ficamos com sôdade”, ri. O Brasil era muito distante, geográfica e culturalmente. Valia o que vinha de Portugal. Mas Gach nunca deixou de ensaiar um fado tropical, como se o rio Amazonas corresse Trás-os-Montes. Sua tese de mestrado versou sobre o uso do gerúndio brasileiríssimo nos textos do luso Eça de Queiróz.

Ao deixar o Brasil em 1952, ao lado dos pais e irmãos, com breve parada na Polônia, depois residência e estudo na Ucrânia e destino final São Petersburgo, Gach nunca deixou de buscar o vínculo com o idioma da infância e início da adolescência que foi obrigado a largar. No consulado soviético de Varsóvia encontrou duas moças de São Paulo, cujas famílias também trilhavam o retorno à terra natal. “Começamos a conversar, notei que em alguns momentos nos escaparam algumas expressões em português, havia um vácuo, a língua começava a desaparecer”, conta. “Talvez tenha sido o primeiro alerta, e a primeira descoberta do que gostaria de fazer profissionalmente. Ali decidi estudar filologia, embora sempre gostasse de mineralogia”. Uma das meninas com as quais ele esbarrou em Varsóvia, voltaria ao Brasil. Chamava-se Zina. “A Zina um dia me enviou uma pérola, O Guarani, do José de Alencar”. Dali para a frente, por onde passasse, Gach tentava contato com o português. Nunca foi fácil, mas ele seguiu no que considerava uma missão de vida.

Anatólio Gach (Fábio Altman/VEJA)

Já aposentado, longe da faculdade, Gach não tem mais muito contato com o português, à exceção dos alunos com quem ainda convive. A mulher, russa, o filho único e os três netos, não falam português. O seu porto seguro, hoje, são as lembranças do que fez. Ele traça o arco de sua existência com o orgulho de quem, mesmo sem incentivos, fez mover moinhos. Uma história lhe vem à cabeça. Ele atravessava as noites, debruçado na máquina de escrever, para distribuir aos alunos poemas e contos de autores do Brasil. Certa feita achou que os alunos deveriam aprender a Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, de 1843. “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá”. Um dos diretores da faculdade assistia à aula de Gach, ouviu o poema romântico e não gostou. “Quer dizer então que o senhor tem saudade, quer ir embora? Então vá”. Foi pressionado a desistir das aulas; Gach sugeriu que o assunto fosse então levado ao Comitê Central do Partido Comunista para uma decisão e só aí o diretor percebeu a bobagem que pusera na mesa.

Gach não foi embora atrás do sabiá. Voltou ao Brasil uma única vez, em 1991, acompanhando um grupo de cientistas e industriais que faziam visitas de negócios. Fazia parte da trupe, como assessor, um ex-agente da KGB, de nome Vladimir Putin.

Induzido a dizer se nunca teve vontade de viver novamente no Brasil, o Brasil de seus primeiros 15 anos, Gach diz: “Cheguei a pensar, sim, mas não há como tornar isso possível. Minha vida é aqui em São Petersburgo, na minha casinha de campo. Mas tenho o Brasil comigo”. A frase remete a um comentário de Vladimir Nabokov, o autor de Lolita, o russo que em 1940 foi para Nova York e desde então passou a escrever em inglês, e não pôs mais os pés no país de nascença. “Não regresso porque toda a Rússia de que preciso está sempre comigo: a literatura, o idioma e minha própria infância”. Da infância, em tempo de Copa do Mundo, Gach tem uma nítida recordação, além de tantas outras, mais relevantes: “Eu era um excelente ponta-direita”.

Primeira páginas do livro em português (//Reprodução)

Primeira página do livro em cirílico (//Reprodução)

Fonte: Revista Saúde

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