Gianni Trabalhador: presidente da Fifa dá entrevista vestido de voluntário

MOSCOU – O suíço Gianni Infantino talvez nem conheça João Doria. Então deve ter sido mera coincidência o fato do atual presidente da Fifa acabar imitando uma das ações pelas quais o ex-prefeito de São Paulo ficou conhecido: Infantino pendurou o terno e apareceu para a entrevista coletiva de encerramento da Copa do Mundo de 2018 vestindo o agasalho vermelho dos mais de 15 000 voluntários que estão trabalhando na organização do Mundial da Rússia. Antes de atender as perguntas de mais de uma centena de jornalistas que estavam presentes no Estádio Lujniki, em Moscou, o mandatário da entidade máxima do futebol mundial fez questão de agradecer os anfitriões.

“Disse antes do torneio que essa seria a melhor Copa do Mundo da história e hoje posso dizer isso com convicção”, disse Infantino, que está a frente da Fifa desde fevereiro de 2016. “Esse país, a Russia, mudou. Se tornou realmente um país do futebol. Acho que também mudou também a percepção do público em relação a essa nação. Todos que aqui vieram  descobriram um país receptivo, extremamente rico em cultura e história. Tenho certeza de que as centenas de milhares de pessoas que vieram à Rússia aproveitaram e mudaram certos preconceitos.”

A declaração inicial, porém, não passou incólume. Um jornalista britânico fez questão de lembrar a Infantino os vários exemplos recentes de controvérsias políticas (a invasão da Crimeia, por exemplo), humanitárias (o acidente com o avião da Malaysian Airlines, atingido por míssil russo) e, claro, esportivas (o esquema de doping financiado pelo governo de Vladimir Putin), e perguntou onde traçar a linha moral até onde o futebol pode ir. Infantino então disse haver “muitas injustiças no mundo”, e seguiu:

“Há muitas coisas que gostaríamos de mudar, não só em um país ou uma região, mas no mundo todo. Mas estamos na Copa do Mundo, focando no futebol, na celebração do esporte. Uma das coisas que faltam no mundo é a capacidade de dialogar e creio que essa é a base para solucionar problemas. Há uma falta geral de comunicação e respeito, e assim não iremos a lugar nenhum. O poder do futebol é abrir canais para comunicar e tomar decisões e pelo menos começar a falar e perceber que há seres humanos em condições melhores, acho que isso já terá sido uma contribuição.”

Sobre a suposta demagogia de vestir o uniforme de voluntário – afinal, Infantino recebe 5 milhões de reais anuais pelo cargo que exerce – e o por quê desses milhares de ajudantes não serem remunerados, o presidente da Fifa esquivou-se bem. Sem responder a pergunta diretamente, disse que “todos que estão aqui por amor ao futebol e à sociedade já foram voluntários na vida em alguma atividade” e concluiu agradecendo à ajuda dos jovens de vermelho dizendo que “merecem um agradecimento e nosso respeito”.

Depois o papo enveredou-se para o futebol, claro, mas não livre de polêmicas. Ao ser perguntado sobre qual a sua avaliação da Copa feita por Neymar, o presidente da Fifa respondeu mais com sua linguagem corporal do que com palavras. “Ele vai nos mostrar muito mais das suas reais habilidades no futuro”, disse Infantino após sorrir amarelo e murmurar, quase reconhecendo o mau comportamento do craque brasileiro nesta edição.

Antes de encerrar a conversa de mais de uma hora, Infantino fez questão de reconhecer o sucesso de sua principal bandeira na primeira Copa do Mundo que trabalhou a frente do show: o VAR, o árbitro assistente de vídeo. “Se ninguém perguntou até agora é porque funcionou muito bem. Para ser honesto, eu estava cético, mas achei que se não testássemos não saberíamos se funciona ou não. Os resultados, e de novo falamos sobre fatos, e não sentimentos e percepções, e são extremamente positivos.”

Segundo Infantino, houve nas primeiras 62 partidas da Copa – restam duas, a decisão do terceiro lugar e a grande final – mais de 440 revisões feitas pela equipe do VAR. Em 19 oportunidades, o árbitro consultou diretamente o vídeo para tomar sua decisão. A corrigiu em 16 oportunidades. “Olhe o significado de progresso no dicionário. Progresso é tornar as coisas melhores e foi exatamente o que o VAR fez. Deixou o futebol mais transparente, ajudando os árbitros a fazer um trabalho muito difícil. Graças ao VAR melhoramos o índice de acerto de 95% para 99,3%. Não é 100%, mas é quase lá.”

Fonte: Revista Saúde

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *