Como Euler usou a matemática para resolver um problema de religião – 30/03/2018 – Marcelo Viana

Em 1776, o suíço Leonhard Euler aceitou o convite da tzarina (imperatriz) Catarina 2ª para regressar a São Petersburgo, capital do império russo, e assumir a cátedra de matemática na Academia Russa de Ciências. A proposta era irrecusável: um belo salário, pensão para a esposa e promessa de cargos importantes para os filhos. 

Aos 69 anos de idade, apesar de praticamente cego, Euler mantinha toda a sua extraordinária potência intelectual e era reconhecido com um dos maiores cientistas do mundo. A sua obra ocupa mais de 60 volumes, o que faz dele o matemático mais prolífico da história.

Catarina, a Grande, como ficou conhecida, uma das monarcas mais notáveis da história, transformara a corte imperial russa em um brilhante centro cultural e intelectual, protegendo e atraindo a presença dos maiores cientistas, pensadores e artistas do seu tempo. 

Entre eles, o filósofo e escritor francês Denis Diderot (1713 – 1784), que se notabilizou por ter idealizado e liderado o grande projeto da “Enciclopédia”, uma iniciativa ambiciosa para reunir e divulgar todo o conhecimento da época, tornando-o acessível a todos. A publicação da Enciclopédia na França, entre 1751 e 1772, foi uma das grandes realizações do Iluminismo.

Tendo tomado conhecimento de que Diderot estava passando por dificuldades financeiras, Catarina comprou a biblioteca dele e contratou-o como curador da mesma pelo resto de sua vida, com um bom salário. Inclusive, pagou 25 anos adiantados!

Embora detestasse viajar, o escritor se viu na obrigação de empreender a longa e perigosa viagem de Paris a São Petersburgo, para prestar homenagem a sua benfeitora. Passou cinco meses na capital russa, em 1773 – 1774, durante os quais teve encontros diários com a tzarina para discussões “de homem para homem”, segundo ele. Frequentemente, marcava seus argumentos dando palmadas nas pernas da rainha!

Em carta a uma amiga francesa, Catarina escreveu: “Esse Diderot é um homem extraordinário. Saio das nossas conversas com as coxas doloridas e roxas. Fui obrigada a colocar uma mesa entre nós dois, para proteger a mim e aos meus membros”.

Esta particularidade não diminuiu em nada a admiração da governante, que continuou protegendo o escritor até a sua morte em 1784, em Paris, aos 70 anos.

A seguinte anedota foi contada pelo escritor francês Dieudonné Thiebault (1733 – 1807) e repetida por muitos autores. Durante a estadia na corte russa, Diderot discutia publicamente, de forma irreverente, suas ousadas ideias ateístas. Isso divertia Catarina, que admirava o brilho e a eloquência dos argumentos, mas também deixava a mui cristã imperatriz em posição embaraçosa perante seus súditos. 

Além disso, chocava Euler, que era muito devoto. Para resolver o problema sem que a tzarina tivesse que passar pelo constrangimento de censurar seu convidado, Catarina e Euler teriam tramado a seguinte astúcia.

Foi anunciado que um matemático famoso havia obtido uma prova rigorosa da existência de Deus e iria apresentá-la na corte. O nome não foi mencionado, mas tratava-se de Euler. No dia da apresentação, ele avançou na direção de Diderot e disse (em francês, idioma oficial da corte russa): “Monsieur, (a+bn)/n = x logo Deus existe! Responda!”

O francês que, supostamente, não entendia nada de matemática, ficou em silêncio, desconcertado. Quando percebeu o que tinha acontecido, já toda a corte caíra na gargalhada. Para escapar da vergonha, só restou a Diderot pedir à imperatriz autorização para voltar a seu país, o que Catarina concedeu aliviada.

Thiebault escreveu: “Não garanto que estes fatos sejam verdadeiros, apenas que na época eles eram comentados pelos habitantes do norte (da Europa), os quais acreditavam neles”. Atualmente, os especialistas duvidam, pois a história não combina com as personalidades nem de Euler nem de Diderot, o qual, aliás, estava muito longe de ser ignorante em matemática.

Euler permaneceu na Rússia, onde viria a falecer em 1783, aos 76 anos, vítima de hemorragia cerebral enquanto discutia com um colega a recente descoberta do planeta Urano. Sua sepultura, construída em granito rosa próximo ao mausoléu de Catarina II, é uma das principais atrações do cemitério luterano Smolensky em São Petersburgo. Tive a sorte de poder visitá-la anos atrás, quando participei da inauguração do Instituto Euler de Matemática na antiga capital da Rússia.

Créditos: FOLHA

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