Brasileiro deu cartão para Maradona em final de Copa e enquadrou lance – 17/04/2018 – Esporte

Aos 18 minutos do primeiro tempo, a então Alemanha Ocidental teve uma falta para bater na entrada da área. Os jogadores da Argentina formavam a barreira e os europeus tentaram recolocar logo a bola em jogo. O árbitro não autorizou. Diego Maradona ergueu os braços para o céu, brigou, reclamou.

Era a oportunidade que o brasileiro Romualdo Arppi Filho, hoje com 78 anos, esperava. Sacou o cartão amarelo e mostrou para o então melhor jogador do mundo.

Maradona levou sua seleção ao título naquela final. No dia seguinte, 30 de junho de 1986, Arppi Filho entrou no avião que o levaria ao Brasil carregando um quadro. A imagem era ele, de costas, com o braço erguido advertindo aquele que naquele momento já era um dos maiores heróis argentinos da história.

“Eu não mostrei o cartão de propósito. Foi porque ele cometeu uma infração e mereceu. Nem sei onde está esse quadro. Faz tanto tempo…”, afirma o aposentado árbitro em entrevista à Folha.

Essa foi a última vez que um juiz brasileiro apitou uma final de Copa do Mundo.

No lance do terceiro gol argentino, que decidiu o título, Arppi Filho evitou parar uma jogada em que aconteceu uma falta, mas a bola seguiu com Maradona, que deu o passe para Jorge Burrochaga definir o campeão mundial.

Esse lance foi usado pela Fifa como exemplo de como os demais árbitros deveriam interpretar a lei da vantagem.

Hoje ele não vê muito futebol. Assiste mais a partidas europeias por considerar que o jogo é mais rápido e as arbitragens são melhores.

“Eles erram bastante, não é? Mas erram menos que no Brasil. Sabe qual é o problema aqui? Os auxiliares são covardes para fazerem as marcações. Eles veem o que aconteceu e não sinalizam nada. Ficam com medo. Eu vejo isso e me irrito”, afirma.

Depois que parou, o último brasileiro a apitar o jogo mais importante do futebol viu a popularização dos comentaristas de arbitragem. Sobre esse assunto, ele, que já até foi convidado para analisar arbitragens para a TV, não disfarça o aborrecimento.

“Não aceitei quando soube que ficaria no estúdio. Ninguém pode comentar arbitragem sem estar no estádio. Tem de estar lá vendo as coisas. Ainda comentam depois de ver o replay 20 vezes”, diz.

Arppi Filho não apitou nas oitavas, quartas ou semifinais da Copa. Achou estranho, mas ninguém da chefia de arbitragem lhe avisou para voltar ao Brasil. Ele foi ficando e acabou escalado na decisão.

O brasileiro não ficou muito preocupado. Ser sul-americano, naquele momento, trazia vantagens, pois conhecia quase todos os argentinos que estariam em campo. Apitava a Libertadores todos os anos. Os alemães não lhe dariam muito trabalho, tinha certeza. Acertou a previsão.

“Foi uma final que não teve nenhum lance polêmico, nada grave. A decisão da Copa do Mundo não é um jogo difícil porque não há jogador que queira fazer uma besteira em campo e ser expulso. Não se compara com a dificuldade que é apitar uma partida de Libertadores”, diz.

A voz fica exaltada quando fala sobre a questão moral no futebol de hoje em dia. Para ele, a decisão do árbitro em campo era soberana. Expulsão era uma partida automática de suspensão e havia menos contestações.

“Lá fora, se o jogador é condenado, não muda nem se pedir para o papa. Brasil é uma bagunça. Quando parei, há 26 anos, já era. Brasil não tem justiça para nada. O trabalho do árbitro não recebe apoio. O Tribunal de Justiça Desportiva é o mesmo que nada. Aqui tem efeito suspensivo, recurso do recurso. Outro julgamento…”, declara.

Arppi Filho nem sabe se vai acompanhar com tanta atenção o Mundial deste ano, na Rússia. Não por renegar o futebol, mas por causa da implementação do árbitro de vídeo, da qual discorda.

“Os árbitros que estão em campo devem estar capacitados para fazer o trabalho, têm de participar da partida, estar perto do lance. Há 20 jogadores na área em uma cobrança de escanteio, o árbitro está pronto para ver tudo o que acontece”, afirma.

Ele critica o tempo levado para tomar decisões a partir da tecnologia. “Vai ter jogo com duração de 120 minutos. São três minutos para saber se foi ou não pênalti. O futebol sempre teve a questão humana. Se você elimina isso, não resta nada”.

Créditos: Folha

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