Até com serrote em aula, Nova Zelândia se destaca com autonomia a alunos – 15/04/2018 – Educação

A menina Zoe, prestes a completar quatro anos, está com um serrote de verdade na mão. Minutos antes, já tinha brincado com um martelo. Ela começa a serrar um pedaço de madeira, que balança por não estar firme no apoio. A professora aparece e firma a peça. Zoe segue serrando.

Outros colegas escolheram brincar em balanços, com massinhas ou ouvir histórias.

Aquela manhã era um dia normal na escola de ensino infantil Paraparaumu Beach, próxima a Wellington, capital da Nova Zelândia.

O pequeno e desenvolvido país da Oceania tem chamado a atenção de especialistas internacionais por dar a escolas e alunos grau de autonomia impensado em outros centros, como Reino Unido, EUA ou até o Brasil. Em 2017, o país foi eleito o que mais bem educa para o futuro, segundo a revista britânica The Economist.

Ficou logo à frente de Canadá, Finlândia e Suíça, em ranking que considera entrevistas com especialistas e dados objetivos, como presença de resolução de problemas nos currículos ou percentual de gasto com educação. O Brasil apareceu em 22º lugar entre os 35 países na lista.

Diretores e professores neozelandeses dizem que encontram caminho para ensinar os alunos a aprender e não apenas a decorar conteúdos, que muitas vezes serão esquecidos após as provas.

“Pode parecer que aqui é só brincadeira, mas tudo é pensado”, disse a professora Alison Burt, que acompanhava a menina com o serrote. “As crianças estão praticando aprendizagem independente. Se você mexe num serrote com essa idade, o que não conseguirá depois?” Ela diz que nunca houve feridos pelas ferramentas no local.

A busca pela autonomia do estudante se estende por todo o ensino básico nesse país que fala inglês e maori (língua do povo nativo). Os alunos vão majoritariamente para escolas públicas (85%) ou são financiados pelo estado em particulares (10%).

“Pergunte a três colegas antes de perguntar a mim” (“ask three before me”) ou “faça você mesmo” são frases que os estudantes costumam ouvir de seus professores.

A partir dessa mentalidade, são construídas aulas como a da escola Owairoa, em Auckland, principal cidade neozelandesa. Na primeira quinta-feira deste mês, uma turma de 18 alunos, de cinco anos, havia sido separada em cinco grupos de crianças.

Algumas escreviam palavras com massinha, outras empilhavam cartas cujas palavras começavam com a mesma letra (be, big, back).

Durante aquela aula, a professora acompanhou apenas dois alunos na leitura de livro. Nos outros grupos, eram os próprios estudantes que conversam entre si para chegarem ao melhor resultado.

O professor britânico de ensino médio Richard Wells, que se mudou para a Nova Zelândia, chamou o país de paraíso da aprendizagem em livro publicado em 2016.

“O senhor poderia, por favor, parar de falar?”, Wells conta ter ouvido de aluno neozelandês durante sua aula, em 2009, quando seguia método tradicional de ensino.

“Se o professor fala por mais de 15 minutos, está errado. O jovem não se concentra mais do que isso com alguém à frente da sala”, disse o diretor Tony Kane, da escola de ensino médio Kapiti.

No colégio se formou o diretor da série “Senhor dos Anéis”, Peter Jackson, que fez aula de cinema ali.

Estudantes do ensino médio na Nova Zelândia podem escolher as matérias que querem cursar, dentro de seu currículo “oficial”. Escola típica do país oferece ao menos 40 opções, como programação, culinária ou marcenaria.

Neozelandeses elegem até seis matérias por série para seu currículo. Apenas por alguns semestres são obrigatórios inglês, matemática, ciências, filosofia, estudos sociais e educação física. No Brasil, são 13 obrigatórias.

O sistema brasileiro também busca diversificar seu currículo, por meio da reforma do ensino médio, mas num modelo mais modesto.

Estão previstas cinco opções em que haverá ênfase para os alunos (em linguagem, matemática, ciências da natureza, ciências humanas ou ensino profissional).

TESTES

Se o modelo neozelandês parece promissor para formar para o futuro, resultados em avaliações tradicionais como Pisa apontam que o país tem grandes desafios hoje.

A média dos estudantes nesse exame, o mais importante do mundo, vem caindo desde 2009, ainda que siga melhor do que a de países desenvolvidos (em leitura, matemática e ciências).

Há desigualdade no sistema, que enfrenta dificuldade em melhorar o desempenho especialmente de alunos maori e de imigrantes recém-chegados de ilhas vizinhas.

Em grandes cidades, tem havido dificuldade para se contratar professores, pois o preço do imóvel disparou devido à procura de estrangeiros, e o salário docente não fica tão competitivo.

Salários iniciais de professores na Nova Zelândia são menores do que em países semelhantes, segundo a OCDE (entidade que representa nações desenvolvidas). Mas o país destina maior proporção do PIB à educação do que a média das nações ricas.

Há discussões na Nova Zelândia também se o sistema deveria exigir mais de escolas e alunos (não há prova como o Enem, por exemplo).

Acostumada com a rede particular de Brasília, Sofia Crispi, 12, disse que às vezes têm a impressão de que está “aprendendo nada” na escola em Queenstown, cidade turística neozelandesa.

Ela chegou com os pais ao local no começo do ano. Conta que há conteúdos que vê hoje que no Brasil foram dados duas séries antes. Ela, porém, diz estar adorando a escola, porque “se valoriza o que é importante para a vida”.

CONTRAMÃO

Nos últimos anos, prevalece em diversos países tendência de aumentar a padronização do que é ensinado entre as escolas de uma rede.

Um grande marco foi o Common Core (núcleo comum) nos EUA, de 2010, que prevê o que alunos devem saber, série a série. Inglaterra e Austrália têm política semelhante. O Brasil foi por caminho parecido, com a aprovação da Base Nacional Comum Curricular, em 2017.

A ideia é que esses documentos centralizadores deixem explícito o mínimo que cada aluno deva saber.

A Nova Zelândia, em caminho oposto, decidiu abolir no fim do ano passado documento semelhante à base. 

Escolas reclamavam que a política havia tirado liberdade delas e forçado ao aumento da carga horária para inglês e matemática —presentes no documento. Restaram apenas diretrizes gerais para o ensino infantil e para as demais etapas da educação básica.

Somados, documentos de referência neozelandeses têm pouco mais de 150 páginas, do infantil ao médio. A base brasileira, apenas para o fundamental, tem 450 páginas.

Documento mais descritivo pode ajudar professores que têm pouco preparo, mas engessa os que poderiam trabalhar atividades mais personalizadas para seus alunos.

“Flexibilidade só funciona porque confiamos nos professores”, disse o diretor do Instituto de Educação da Universidade Massey, John O’Neill.

Tipicamente, os professores lá passam três ou quatro anos no curso superior, com dedicação integral. No Brasil, são de dois a três, parcial.

Para entrar nos cursos para o magistério, o candidato na Nova Zelândia precisa comprovar bom desempenho em inglês e matemática, escrever projeto do porquê quer ser professor e passar por entrevista na faculdade.

No Brasil, exige-se apenas uma prova (Enem ou vestibular), em que normalmente há mais vagas do que candidatos. Os que ingressam em geral são os que estão entre os desempenhos mais baixos.

“Enquanto não conseguimos melhorar o magistério como profissão, a base será importante”, diz Claudia Costin, ex-diretora de educação do Banco Mundial e ex-secretária de Educação do Rio. “Precisamos administrar este momento de travessia.”

Créditos: FOLHA

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