Pequenos negócios viram saída para desemprego, mas chances de fracasso também aumentam

R7 – Diego Junqueira – 08/12

Crise ampliou o número de negócios por necessidade, mas falta de vocação pode levar à ruína

Nunca houve tanta gente no Brasil interessada em abrir o próprio negócio. A principal explicação é o desemprego, que atingiu 12 milhões de pessoas em setembro, o que vem estimulando o trabalho autônomo e a abertura de micro e pequenas empresas. Para especialistas, no entanto, muitas decisões estão sendo tomadas no desespero e sem planejamento, o que aumenta as chances de fracasso. Conheça a seguir alguns caminhos para abrir um negócio de baixo investimento e ficar distante da quebradeira.

O primeiro semestre de 2016 foi histórico: pela primeira vez, mais de 1 milhão de pessoas fizeram registro de CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica) num período de seis meses.

Esse movimento é impulsionado pelos chamados MEIs (Microempreendedores Individuais), modalidade criada em 2010 para quem tem rendimento anual de até R$ 60 mil. A cada ano, mais de 1 milhão de pessoas entram nessa categoria, que inclui manicures, cabeleireiros, jardineiros, motoristas, entre outros.

A alta dos pequenos negócios também é verificada pelo crescimento do Supersimples, a modalidade de tributação que concede impostos mais baixos para empresas de menor porte. Considerando MEIs e as micro e pequena empresas, o número de pessoas jurídicas que atualmente quitam seus impostos pelo Supersimples chegou a 11,5 milhões em novembro deste ano — no fim de 2015 eram 10,6 milhões, ante 9,5 milhões em 2014.

“Num momento de crise macroeconômica grave, um milhão CNPJs novos é muito relevante”, ressalta Enio Pinto, gerente de Atendimento Individual do Sebrae Nacional (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas).

Ele destaca, contudo, que muita gente “está empreendendo não porque é vocacionada, mas por necessidade de sobrevivência”.

Antes da crise econômica, o Sebrae estimava em até 70% o número de empreendimentos abertos por oportunidade e 30% os negócios por necessidade. Agora está meio a meio, o que gera “grandes preocupações”.

— Quem empreende por necessidade entende que o seu empreendimento é temporário, então ele não investe tanto na qualificação como empreendedor. Ele pensa que está ali até encontrar um emprego, voltar para o mercado. Como é temporário, necessariamente vai ser um trabalho precário. Não vão ter muitos investimentos na empresa nem no profissional como gestor, e a chance de ele quebrar em curto prazo é muito maior do que aquele que empreende por oportunidade.

José Rubens Oliva Rodrigues, diretor de microfranquias da ABF (Associação Brasileira de Franchising), destaca o crescimento do setor de franquias mesmo nos anos recentes de crise econômica, em especial o dos pequenos negócios, que costumam crescer mais. Em 2015, o faturamento geral das franquias superou em 8,3% o montante gerado no ano anterior, totalizando R$ 139,5 bilhões. Este ano também haverá crescimento, mas num ritmo menor.

Assim como o diretor da Sebrae, Oliva Rodrigues afirma que a afinidade pelo segmento escolhido é o principal fator de sucesso ou fracasso dos empreendimentos.

— O grande erro hoje é a pessoa escolher a franquia pelo valor do investimento, e não pelo segmento. Isso pode levar ao prejuízo.

Com tantos negócios por necessidade, a expectativa é de que a taxa de mortalidade das empresas nos dois primeiros anos de atuação, que gira em torno de 25% a 30%, aumente daqui pra frente, segundo o gerente do Sebrae.

— Isso deve continuar acontecendo nos próximos dois a quatro anos, muito em função do amadorismo de quem empreende por necessidade. E é bastante compreensível, porque o sujeito está apertado e precisa fazer dinheiro, então abre qualquer coisa correndo sem muito planejamento, sem preparo e sem estudo.

Como não entrar num barco furado?

A vantagem imediata de se abrir um pequeno negócio é que o investimento inicial é mais baixo. Mesmo assim, diz Pinto, um planejamento mínimo é necessário.

O Sebrae sugere três primeiros passos antes de embarcar na jornada do empreendedorismo. Primeiro, fazer uma autoavaliação, uma reflexão pessoal, para descobrir se o potencial empresário tem mesmo características para empreender. Em seguida, é preciso realizar uma avaliação de mercado, ou seja, uma análise de consumidores, concorrentes e fornecedores. Após as duas etapas, é hora de fazer contas: há dinheiro para isso? Quanto vai custar a operação? Há necessidade de contratar funcionários e pagar aluguel? Qual a perspectiva de faturamento? Nesse momento, quem puder manter uma reserva técnica de seis meses para o funcionamento da empresa já larga na frente, diz o gerente (veja mais dicas ao final).

— Ter os recursos próprios é a melhor opção, porque já começa com um gasto a menos, sem ter de pagar a bancos ou a terceiros. Além disso, se puder abrir mão de um sócio e empreender com a família, é menos um para dividir os poucos recursos que terá num primeiro momento.

Foi exatamente isso o que fez o agora consultor de piscinas Pedro Américo Espanhol, de 31 anos, que há nove meses comprou uma franquia da iGUi Trata Bem, onde trabalha ao lado da mulher.

Após trabalhar três anos como vendedor de veículos, ele viu o setor ser tragado pela crise econômica, levando junto seus rendimentos e comissões. Ele aproveitou as facilidades da concessionária onde trabalhava para comprar um caminhão e atuar na entrega de mercadorias em São Paulo. Mas as vendas online das empresas para as quais prestava serviço também estavam capengas. Assim, ele passou a procurar por uma franquia de baixo custo.

Espanhol vendeu seu caminhão, deixou a casa onde vivia de aluguel e reformou a casa da sogra para viver com a mulher. Sobraram R$ 15 mil para recomeçar a vida.

— As empresas ofereciam um salário muito baixo. Aí pensando no valor que eu ia ganhar numa empresa, decidi trabalhar para mim mesmo. Olhando para minha carga de conhecimento e disponibilidade, procurei prestação de serviços.

No início de 2016, ele visitou a feira de empreendedorismo do Sebrae e buscou informações sobre algumas franquias.

Com experiência em elétrica e hidráulica de residências, ele procurou primeiro as franquias de serviços gerais para casas. Mas a falta de apoio das marcas o levou para o segmento de piscinas, onde poderia ainda ampliar seu conhecimento, já que a franquia escolhida oferecia cursos de capacitação.

— De piscina eu sabia mexer com a parte elétrica e encanamento. Mas a iGUi me deu apoio sobre piscina, me deu os princípios básicos para eu encaixar o que conhecia. Fiz também um curso técnico em química de água.

Seu investimento inicial foi de R$ 11 mil, dos quais R$ 5.000 foram revertidos imediatamente em produtos. Para trabalhar, usava apenas seu carro e a própria casa.

— Eu abri a empresa no período do inverno, mas já no primeiro mês tive uma resposta, porque na região onde atuo, na zona norte de São Paulo, há uma carência por esse serviço. Foi quando eu resolvi ampliar para uma loja. E quando minha esposa ficou desempregada, ela veio trabalhar comigo.

Franquias e a “bola de cristal”

Para o gerente do Sebrae, as franquias são um negócio mais seguro por já terem sido testados. Há vantagens também como o compartilhamento de custos com outros associados da rede, além do efeito “bola de cristal”: se o potencial franqueado visitar unidades que operam há mais tempo no mercado, ele poderá se vislumbrar no futuro.

Existem outras vantagens ainda. Há diversas microfranquias de baixo valor, a partir de R$ 5.000, em vários segmentos. As redes também têm um cuidado territorial para que um novo franqueado não se instale em uma área de concorrência com outro associado da marca.

Mesmo com as facilidades, no entanto, os interessados devem fazer um planejamento e ficarem atentos às marcas que escolhem.

— Franquia é o mais seguro? É. Mas tem franquias e franquias. Comece namorando três ou quatro para depois decidir quem vai namorar e casar, para ver as diferentes possibilidades. Pergunte ao franqueador quantas unidades da sua franquia ele tem. É estranha essa pergunta, porque o franqueador na verdade hoje vende franquia. Ele vai dizer que o negócio dele é bom. Mas se é tão bom, eu quero saber quantas ele tem. Se ele não tem unidades franqueadas dele, onde ele vai te treinar? Se ele não tem lojas, ele já perdeu o contato com o público final daquele serviço, que é o consumidor.

Existem atualmente cerca de 3.000 marcas de franquias no Brasil. Ao menos 1.100 estão associadas à ABF, que acompanha a evolução desse mercado no Brasil.

Rodrigues, diretor de microfranquias da ABF, ressalta que a identificação com o segmento de trabalho é o mais importante no momento de definir em qual negócio embarcar. O suporte oferecido pelas franquias também é decisivo. Ele recomenda inicialmente buscar o segmento de atuação, escolher a marca e conhecer a “circular de oferta” da franquia, documento que traz detalhes sobre o custo do negócio, a minuta de contrato, a lista dos franqueados e o balanço da empresa.

Ele afirma que dificilmente uma franquia de R$ 5.000 vai entregar o mesmo serviço de uma franquia que cobra R$ 50 mil, porque o “nível de atendimento e entrega é outro”. No entanto, a falta de experiência do franqueado ou do franqueador, e sobretudo a não identificação com o segmento, são as principais justificativas para o fracasso.

Serviços

Para Enio Pinto, do Sebrae, em se tratando de investimentos de menor porte, a saída mais fácil é o setor de serviços, já que o setor de comércio demanda gastos com estoque e os setores do agronegócio e da indústria exigem propriedades e investimentos de grande porte.

Outra vantagem do setor de serviços é que o trabalho poderá ser feito pelo próprio empreendedor, reduzindo custos de contratação. Por isso, ele diz, ter vocação e gostar do que faz é fundamental.

— E aí faz diferença ter afinidade com o setor. Esse é o ponto crítico. Ele vai ter que ter muito prazer de atuar ali porque só assim ele vai agregar valor. Não tem como não ter afinidade ou paixão.

Paixão é exatamente o que levou a revisora e também confeiteira Luciana Pereira, 36 anos, a criar sua marca, a Diva Em casa.

Cozinhando em casa simplesmente para criar e publicar receitas em seu blog, ela viu o negócio crescer com o interesse dos amigos.

Moradora do Gama (DF) e trabalhando em um jornal de Brasília como revisora, ela passou a sentir a crise na pele, ao ser demitida da empresa. Passou a depender de bicos, mas notou que o mercado de comunicação perdia importância ao mesmo tempo em que seu blog ganhava audiência.

Atualmente, ela está planejando sua virada. Ela fatura entre R$ 1.500 e R$ 3.000 por mês como revisora e uma média de R$ 1.000 por mês como confeiteira, trabalhando em casa e atendendo aos pedidos de amigos e conhecidos. Para os próximos quatro anos, no entanto, ela quer deixar a revisão e abrir uma confeitaria.

— Como revisora eu já tinha computador para trabalhar e, na confeitaria, eu aproveitei a estrutura que tenho em casa. Tenho interesse em criar um ateliê em casa e, no futuro, abrir uma loja. Estou fazendo uma pós em gastronomia por isso. Minha intenção é ser cada vez menos revisora e mais confeiteira.

Créditos: Portal do Franchising

%d blogueiros gostam disto: