Como os paulistas tentam aliar conforto e economia com a água após a crise hídrica

Equipamentos de pressurização, água de reuso e poços artesianos foram alternativas para evitar novos períodos de seca no Estado

No dia 21 de setembro de 2014, a Sabesp – companhia paulista de abastecimento hídrico e saneamento – informou que o principal reservatório de água do Estado, o Sistema Cantareira, havia chegado ao nível mais baixo da sua história: 8,1% da capacidade total. Naquela época, a retirada era feita da reserva técnica que ficou popularmente conhecida como “volume morto”, também com prazo para acabar. A situação era tão alarmante que, no mês seguinte, a imprensa divulgou um áudio vazado de uma reunião da diretoria da Sabesp em que a presidente da companhia, Dilma Pena, admitia que poderia faltar água no Estado, e seu diretor e porta-voz, Paulo Massato, era mais enfático: mandava a população ir embora de São Paulo.

Alguns bairros da periferia da cidade, como Aricanduva, na zona leste, e Freguesia do Ó, na zona norte, ficavam sem água durante longos períodos do dia e houve reclamações de abastecimento inadequado para o consumo humano. Um dos vídeos virais daquela época é de uma mulher abrindo a torneira de sua casa, em Mirassol, no interior do Estado, e recebendo água barrenta.

Dois anos e meio depois do auge da crise hídrica em São Paulo, porém, o assunto entrou em esquecimento: nesta semana, a Sabesp anunciou que lucrou R$ 2,9 bilhões em 2016 e que o Cantareira, seu principal reservatório, estava com 69% da capacidade. O governador Geraldo Alckmin já tinha comemorado o fato no ano passado, durante evento no Sistema Guarapiranga. Porém, a companhia alertou que a iminente seca que os paulistas enfrentaram não foi suficiente para conscientizá-los sobre o uso consciente: há muito desperdício dos usuários, que mesmo na pior fase da crise continuavam consumindo água em demasia, como lavagens de carros e calçadas.

Se a melhora do Cantareira permitiu certo relaxamento dos consumidores quanto ao consumo, o discurso de economizar água continua em muitos locais que sofreram com a seca paulista: houve um aumento na demanda de construção de poços artesianos em regiões periféricas e no interior e, na capital, os edifícios residenciais e comerciais tiveram de se adaptar de outras formas, como a reutilização de água e a instalação de pressurizadores para a lavagem de áreas externas. Em regiões com maior número de condomínios na cidade, é comum ver placas informando sobre medidas tomadas para gastar menos água. Os moradores, no entanto, ainda prezam também por um banho confortável, gerando uma dualidade entre ter um bom banho que seja, ao mesmo tempo, “consciente”.

Os pressurizadores, nesse caso, podem ter os dois usos: proporcionam conforto em chuveiros e torneiras, por exemplo, e podem economizar água em máquinas de lavagem de carros e calçadas. “No caso do chuveiro, o equipamento aumenta a pressão para sair água com mais força. O pressurizador fica no ponto de consumo. É uma estratégia para proporcionar mais conforto em casas onde a caixa d’água é baixa e a vazão fica prejudicada, por exemplo”, explica Luciano Zanella, do Centro Tecnológico do Ambiente Construído do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), de São Paulo.

“No entanto, eles também podem servir para economizar por meio das máquinas de lavagens, porque a mistura de ar na água gera um fluxo maior no jato sem aumentar a vazão, além da força que ele exerce. Em vez da torneira aberta, a pressurização faz o trabalho de economizar”, completa. Alguns desses equipamentos já são vendidos no mercado com pressurizadores embutidos.

No interior, os instaladores de poços semi-artesianos tiveram aumentos significativos na demanda e, em algumas regiões da periferia de São Paulo a perfuração foi feita de forma clandestina. Dados do Departamento de Água e Energia Elétrica (DAEE), órgão estatal que controla esse tipo de atividade, mostram que 80% dos poços atualmente em São Paulo são irregulares. No período de crise, empresários chegaram a dizer que as consultas sobre perfuração de solos cresceram 300%, e a instalação deles dobrou de crescimento.

As fabricantes de equipamentos domésticos que envolvem água, como torneiras, chuveiros e privadas, já perceberam esse desafio: em março, uma reportagem do jornal Valor Econômico abordou a dificuldade em satisfazer os dois tipos de clientes. Segundo a matéria, as empresas observaram que os consumidores paulistas seguem procurando dispositivos que aliem conforto e economia, e por isso preferiram apostar em linhas sustentáveis. O texto ainda afirma que essa preocupação está relacionada à renda: enquanto as classes populares tendem a gastar menos água para economizar na conta no final do mês, colaborando para a pauta sustentável, as classes médias e altas prezam pelo conforto, e como vivem em lugares maiores, o consumo também aumenta.

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