A carência nossa de cada dia

A situação é basicamente simples: um local qualquer, dentro de qualquer rotina e um acontecimento naturalmente desejado, mas tão surpreendentemente concretizado. Quem nunca se fez protagonista da sua, da minha, da vossa, da “nosotra” história?

Sim, somos e estamos (nessa ou na inversa ordem) carentes. Se você colocou um “tão” entre o verbo e o adjetivo, não se preocupe que não é nada patológico. Pode ter sido somente uma mera questão emocional e, com essas coisas, é bom tratar com zelo e… Respeito!

Um breve e provável encontro

Desde criança, sempre gostei de viajar. No início, era só estrada, na “adulteza” cresci e compreendi o conceito de inércia com os aviões. E, nesta semana, rodei pela BR 101 (on the road!) entre os estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo.

Gostando ou não, sempre faço baldeações e, um dia quem sabe, eu me autodedique um adjetivo dos bons para essas “peripécias econômicas” e, ao mesmo tempo, enriquecedoras. Mas foi nesta, (embora pudesse ser em qualquer outra) semana que desejosamente resolvi tomar um café na padaria próxima à rodoviária de uma pequena cidade (como de costume e forma de avaliar um lugar, pelo jeito que a bebida negresca é preparada, servida e cobrada), enquanto aguardava meu segundo ônibus.

Um casal de idosos estava sentado à mesa que iria ficar, enquanto uma senhorinha simpática, simples e devota de Nossa Senhora Aparecida (muito bem estampada na camiseta branca a la feirinhas de Aparecida do Norte) resolveu puxar conversa comigo, daqueles papos triviais que os desconhecidos logo tecem.

Entre várias respostas humoradas que lhe dava, mais a vontade ela se sentia, com minha magra (ou esbelta?) presença. Até que não demorou muito para que ela (com sua pequena voz aguda e soprada) me dissesse “É minha filha… às vezes as pessoas que conhecemos nem se importam com a gente e as que nem conhecemos nos dão atenção”.

Não tive como não concordar com aquela senhora de jeito frágil que me olhava bondosamente e que, ao final, me disse que tinha gostado tanto de mim que veio para me abraçar, recomendar lembranças a minha mãe (só porque comentei que eram “xarás”) e me prometeu colocar em suas orações (amém!).

Se ainda estivéssemos no tempo de revelações de foto (lembra-se da Kodak?) essa cena seria um negativo diante de um rolo maior de tantos retratos que “registram” as imagens do nosso parco cotidiano.

Ainda assim, somos carentes e demonstramos nosso singelo sentimento das formas mais tresloucadas a ponto de envolvermo-nos nas próprias confusões de um jeito único e aprazível que nem sabemos como começou, porque começou, mas agora ficou desse jeito.

Quem nunca trocou os pés pelas mãos e no fim confundiu o seu próprio macio corpo? Quem nunca falou em “nome de Deus” com o intuito de ouvir de seus próprios ouvintes o seu nome? (também vale apelidos para os anônimos famosos de bairros).

Quem nunca criticou o feito do outro como “mal feito” só para dizer que sabe o que consiste – e que pode fazer – bem feito? Quem nunca foi tanto ou mais feroz do que um animal selvagem e queria, na verdade, ser afagado como um gatinho em uma fria manhã?

Por ora, a carência nos vela, revela e gentilmente nos pede para sermos sempre persistentes e perseverantes, ou seja, perseverar o quanto antes naquilo que nos falta, no eterno vazio que interiormente nos toca. E para isso, mantemos a insistência nos relacionamentos que vingam as mágoas e desilusões “fico com ele porque ninguém mais vai me querer” ou ainda “minha vida mudou de uma forma que nunca imaginei e nem quis, mas Deus assim quis”…

Estamos muito carentes e queremos o pronto e acabado, o “fast food” que nos empanturre a alma para dormimos sossegados e sem pressa para acordar. Queremos para ontem e isso é tão sério que nem se sabe exatamente qual é o objeto de desejo. E este querer é sofrível (e não me venha com sofrência que já é por demais) que perdemos a nossa face diante do espelho de Cecília Meireles – e ela feliz pelo poema feito, nos esqueceu de mostrar em que parte o rosto desfocou.

Mas há pontos escuros espalhados no espelho, há frases desconexas em meio ao desespero, há truques mágicos em prol de milagres, como há também abraços descompassados, cafés mornos e poeira na estrada. A carência é qualquer angústia, como qualquer outra coisa inusitada que se possa imaginar.

Gau Figueirêdo
Bacharel em Filosofia, Microempresária e Redatora.
Contribuo, aqui, no “Jornais Virtuais” todos os domingos nas colunas: Empreendedorismo e Sociedades
Meu blog “http://reflexosmentais.wordpress.com/”
Gau Figueirêdo

Gau Figueirêdo

Bacharel em Filosofia, Microempresária e Redatora. Contribuo, aqui, no "Jornais Virtuais" todos os domingos nas colunas: Empreendedorismo e Sociedades Meu blog "http://reflexosmentais.wordpress.com/"

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